Pensando em pensamentos
- Ana Luiza Monte
- 18 de mai.
- 2 min de leitura

E essa moda da divisão de telas onde em uma parte tem um vídeo de milissegundos do comportamento de alguém (geralmente já com longos anos de vida) sendo analisado por qualquer um? Como surgiu do dia para a noite inúmeros especialistas em comportamento humano na rede social! E o pior disso: ganhar dinheiro. Vídeo viralizado. Curtidas. Nunca sei o que mais podemos inventar para tornar nefasta as relações. Durante quase toda a minha vida, sofri com a famosa frase: "Virginianos são críticos e perfeccionistas". E o que dizer então de um globo movido a curtidas e cancelamentos? São todos virginianos afinal?
Ah, se soubessem o que eu sei! Se fossem realmente virginianos, não inventariam uma crueldade dessas. Acredito que quem mais se limita e sofre com a sua crítica é o próprio crítico. É difícil viver paralisado por um mundo que só existe na sua cabeça, onde tudo sai perfeito, inclusive o próprio comportamento. E quando não sai, quanta frustração, tristeza, decepção consigo. Conseguir distinguir-se dessas ilusões da mente é uma imensa batalha, especialmente quando é aí que estão sempre apontando o dedo: "A vida deve estar querendo te dizer que é crítica demais". Como dói!
Quando ouvi isso, na última vez em que estava passando por uma longa e difícil prova, custei a acreditar! O "conselho" veio de alguém que considerava uma amiga. Sendo que foi esta mesma pessoa quem um dia fez questão de que eu fosse na sua casa, mesmo eu dizendo que não queria ir, e me perguntou o que eu achava. Senti-me realmente desconfortável e intimidada. Que tipo de pergunta era aquela? O que eu tinha que achar da casa de alguém? Foi a situação mais constrangedora que vivi até então (embora ela tenha me feito passar por muitas outras depois, ainda piores!). Enfim.
Em várias situações preciso me dizer para conseguir concluir certas coisas: "é melhor um trabalho imperfeito terminado, que um perfeito inacabado". Isso virou meu mantra faz um tempo e continuo exercitando-o para cada caixinha da Sofia in Box e para tudo o que faço em geral, pensando nos outros: melhor algo feito com amor, embora imperfeito, porém acabado. Afinal a perfeição não é desse mundo, mesmo que possamos concebê-la na mente.
Tenho quatro amigos verdadeiros desde que me entendo por gente. Suas casas estão sempre de portas abertas para mim e não lembro sequer a cor da parede da sala de estar. Quando estamos juntos, temos diálogo, temos discordâncias, temos risadas, temos opiniões contrárias, temos personalidades distintas, temos limites que jamais são ultrapassados, mas fundamentalmente, temos respeito por nossas almas que habitam essas personalidades presas nessa jornada tão intensa da vida que, certamente, jamais poderia ser resumida a minha opinião sobre seus modos de vida ou milisegundos de um vídeo qualquer, analisado por um estranho sequer!
*Imagem: Obra inacabada e intitulada Altar in a Baroque Church (1880- 1890), de Adolph Menzel. Foi exposta temporariamente no Met Breuer (NYC).




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